Mostrando postagens com marcador José de Alencar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José de Alencar. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de abril de 2010

A arte de conversar

Estou hoje com bem pouca disposição para escrever.

Conversemos.

A conversa é uma das coisas mais agradáveis e mais úteis que existe no mundo.

A princípio conversava-se para distrair e passar o tempo mas atualmente a conversa deixou de ser um simples devaneio do espírito.

Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a pior coisa que Deus deu ao homem.

Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber conversar, é preciso estudar profundamente todos os recursos da palavra.

A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma ciência, uma profissão mesmo.

Há, porém, diversas maneiras de conversar. Conversa-se a dois, en tête-a-tête; e palestra-se com muitas pessoas, en causerie.

A causerie é uma verdadeira arte como a pintura, como a música, como a escultura. A palavra é um instrumento, um cinzel, um crayon que traça mil arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil harmonias de sons e formas.

Na causerie o espírito é como uma borboleta de asas douradas que adeja sobre as idéias, sobre os pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.

A imaginação é uma prisma brilhante, que reflete todas as cores, que decompõe os menores átomos de luz, que faz cintilar um raio do pensamento por causa de suas facetas diáfanas.

A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e muito da estratégia militar.

Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente um duelo, um combate.

Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai certo de que estão calculando algebricamente o proveito que um pode tirar do outro, e resolvendo praticamente o grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.

Se forem namorados en tête-a-tête, que estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices, requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso, podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou buscam uma incógnita que não existe neste mundo - a fidelidade.

Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se, como dissemos, uma perfeita estratégia militar, um combate.

A palavra transforma-se então numa espécie de zuavo ao ponto do ataque. Os olhos são duas sentinelas, dois ajudantes-de-campo postos de observação n'alguma eminência próxima.

O olhar faz as vezes de espião que se quer introduzir na praça inimiga. A confidência é uma falsa sortida; o sorriso uma verdadeira cilada.

(...)

(José de Alencar - "Ao correr da pena" - pág 319 a 321)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A religião

A religião, essa sublime epopéia do coração humano, tem um símbolo para cada sentimento, uma imagem para todos os acidentes da nossa existência.

É ao pé do altar que o homem vê abrir-se para ele uma fonte de todas as as supremas venturas deste mundo -  família; e quando o sopro da desgraça vai desflorando uma a uma as flores da vida, é ainda ao pé do altar que achamos o consolo para as grandes dores, a esperança nos maiores infortúnios.

É que nesta brava romaria que fazemos pelo mundo, a religião nos acompanha como esses guias mudos do deserto, apontando-nos umas vezes o nada de onde partimos, outras a eternidade para onde caminhamos, e mostrando-nos a espaços com um aceno a linha negra que prognostica o simoun, ou os rastos dos animais que anunciam o oásis no meio das vastas sáfaras de areia.

Quantas vezes no seio das alegrias e dos prazeres, quando nossos olhos vêem tudo cor-de-rosa, quando o ar que respiramos parece vir perfumado dos bafejos da ventura, não sentimos de chofre o coração apertar-se como tomado por um doloroso pressentimento, e a alma constranger-se numa angústia pungente?

O deslumbramento passa rápido como o pensamento que o produziu. Mas dir-se-ia que o coração, comprimindo-se, como que vertera na taça do prazer uma gota de fel, e que entre o rumor da festa e os sons alegres da música, viera ferir-nos os ouvidos com um eco surdo das lamentações de Jó.

Também às vezes a fortuna nos embala docentemente, e ambição nos empresta suas asas de ouro, ao passo que a glória envolve-nos com a sua auréola brilhante. Então o homem caminha com os olhos fitos na sua estrela, e com a cabeça alta passa sem perceber as misérias do mundo.

Mas lá vem um dia, uma honra, um instante em que o corpo verga como o peso de tanta grandeza e a cabeça acurva-se para a terra. Os olhos que mediam o espaço vacilam; a vista que se dilatava pelos horizontes e ousava sondar os arcanos do futuro quebra-se ao encontro a uma lousa, a um fosso, onde a pá do coveiro traçou um estreito quadrado e com um pouco de terra revolvida o emblema ao som de uma sentença do Eclesiástico.

Se, porém, a religião é severa nos seus conselhos, e durante os dias de paz e de ventura fortifica o homem por meio da tristeza, na dor ao contrário, é de uma bondade infalível.

Nem uma fibra palpita no corpo humano, nem uma pulsação abala o coração, nem um soluço arqueja num peito quebrado pelo sofrimento, que não ache nela um eco, uma voz que lhe responda.

Neste grande livro da fé e da esperança, neste sublime diálogo entre Deus e o homem, todas as lágrimas têm uma palavra, todos os gemidos têm uma frase, todas as dores uma prece, todos os infortúnios uma história.

A vida humana se resume na religião; nela se acha a essência de todos os grandes sentimentos do homem e de todas as grandes coisas do mundo.

Tem a severidade e o respeito que inspira a paternidade e ao mesmo tempo todos os zelos da maternidade. Aconselha como um pai quando fala pelos lábios de um sacerdote; é a mãe que se multiplica para seus filhos, quando abriga no seu seio todos os infelizes.

Mas, quando se folheia este livro da vida, e que se chega à última página - à morte - quando a alma, em face do nada sente-se tomada desta grande e assombrosa ameaça do completo aniquilamento, é que se sente quanto há de consolador na religião.


(José de Alencar - Ao correr da Pena, pág. 82 - 85)



Texto longo, não?! Concordo! Mas por trás das poéticas palavras do escritor José de Alencar, no texto acima, está uma reflexão de que só buscamos Deus nos momentos de aflição.

Ou você, sequer, lembra da existência Dele quando se está muito feliz, com fartura, com dinheiro no bolso, com a família cheia de saúde? Por acaso lembra de agradecer pelas boas coisas que recebe do Criador?

Todos nós somos assim! Aí... quando a morte, a desgraça, e até mesmo a famosa "fatalidade" acontece... é Deus quem tem que limpar as nossas lágrimas e resolver nossos problemas... quando na verdade, Ele está presente na nossa vida em todos os momentos, sejam eles bons ou ruins.


É um assunto para se pensar com carinho e seriedade... 

Bom domingo!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A arte de chorar

A arte de chorar, a propósito é a primeira das artes, assim como as lágrimas são a única língua universal que existe na terra, e que provavelmente foi falada antes da Torre de Babel.

Quereis a prova?

Abri a boca e chorai... todo mundo entenderá que tendes fome.

Chorai e bebei as lágrimas; e logo se conhecerá que estais morrendo de sede.

Levai a mão ao coração e chorai olhando uma mulher; e ela compreenderás que a amais.

Erguei ao céu os olhos rasos de prantos, juntai as as mãos; e ninguém deixará de entender a prece muda de uma alma infeliz.

Voltai as algibeiras e deixai correr algumas lágrimas; e logo verás que não tendes dinheiro nem crédito.

Uma lágrima isolada, que prende da pálpebra, e corre lentamente por um rosto pálido e triste, exprime uma dor silenciosa e concentrada; é como uma gota de fel que verte do coração

Duas lágrimas límpidas que empanam às vezes o brilho dos olhos, e se desfilam docentemente pelas faces, dizem uma saudade, uma suave recordação.

O pranto e os soluços são a expressão do desespero, assim como uns olhos rasos de lágrimas e um sorriso revelam o momento da suprema felicidade deste mundo.

E entretanto, apesar do poder irresistível desta linguagem universal, todo mundo trata de rir, e ninguém sabe chorar. As lágrimas vão caindo em desuso; e apenas nas despedidas e nos enterros ainda se usa, bem que raras vezes, deste meio persuasivo.

(José de Alencar)



domingo, 18 de outubro de 2009

Falemos de Flores!!!


Falemos de flores.

O que é uma flor?

Será uma criação vegetal que na primavera se abre do botão de uma planta?

Não: a flor é o tipo da perfeição, é a mais sublime expressão da beleza, é um sorriso cristalizado, é um rai de luz perfumado.

Por isso há muitas espécies de flor.

Há as flores do vale - mimosas criaturas que vivem o espaço de um dia, que se alimentam de orvalho, de luz e de sombras.

Há as flores do céu - as estrelas -, que brilham à noite no seu manto azul, como olhos de uma linda pensativa.

Há as flores do ar - as borboletas -, que têm nas suas asas ligeiras as mais belas cores do prisma.

Há as flores da terra - as mulheres -, rosas perfumadas que ocultam entre as folhas os seus espinhos.

Há as flores dos lábios - os sorrisos -, lindas boninas que ao menos sopro desfolha.

Há as flores do mar - as pérolas -, filhas do oceano que saem do seio das ondas para se aninharem no seio da mulher morena.

Há as flores das poesia - os versos -, às vezes tão cheios de perfumes e de sentimentos como a mais bela flor da primavera.

Há as flores d'alma - os sentimentos -, flores que o coração serve de vaso, e as lágrimas de orvalho.

Há as flores da religião - as preces -, modestas violetas que perfumam a sombra e o retiro.

Há as flores da harmonia - os gorjeios -, que brincam nos lábios mimosos de uma boquinha sedutora.

Há as flores do espírito - os ziguezagues -, que nascem sobre o papel como rosas silvestres e sem cultura.

Há enfim uma espécie de flor que é tão rara como a tulipa negra de Alexandre Dumas, como o cravi azul de Jean-Jacques, como o crisântemo azul de George Sand.

É a flor da vida este sonho dourado, este puro ideal a que todos aspiram e de que tão poucos gozam.

Porque a flor da vida apenas vive um dia, como as rosas da manhã que a brisa da tarde desfolha.

E quando murcha, deixa dentro d'alma os seus perfumes, que são essas recordações queridas que nos sorriem ainda nos últimos tempos da existência.

Para uns, a flor da vida nasce nos lábios de uma mulher; para outros no seio de um amigo.

Feliz do caminhante que à beira do bosque por onde passa, colhe esta florzinha azul, espécie de urze cingida de uma coroa de espinhos.

Muitas vezes, depois de muitas fadigas, quando já se tem as mãos feridas dos espinhos, e que vai colher a flor, ela se desfolha

O vento soprou sobre ela, ou um verme roeu-lhes os estames.

A flor é poesia, mas o fruto é a realidade, é a única verdade da vida.

Enquanto pois os poetas vivem à busca de flores, os homens sérios e graves, os homens práticos, só tratam de colher os frutos.

Eles vêem desabrochar as flores, exalar os seus perfumes, e esperam como o hortelão que chegue o outono e com ele o tempo de colheita.

E na verdade, a flor encerra sempre o germe de um fruto, de um pomo dourado, que outrora perdeu o home, mas que hoje é sua salvação.

(José de Alencar, no livro "Ao Correr da Pena", pág. 468 a 471)




Flores! Texto escolhido para comemorar o nascimento das minhas flores, plantadas há uma semana. Estou fazendo um mini e belo jardim em minha casa. Além das flores já floridas, neste final de semana começaram a brotar as mais novas integrantes do meu jardim. Vai demorar um pouco, mas logo estarão enchendo nossos olhos de alegria ao acordar, quando abrimos a janela do quarto e nos deparamos com as criaturas mais belas que Deus já criou.



Bom final de Domingo e Boa Semana a todos!


Adicione o Tolerância Um!!! aos seus favoritos

Adicione aos Favoritos Adicione aos Favoritos